quinta-feira, 17 de março de 2016

Prática filosófica do cuidado de si em tempo de crise

             

                “A filosofia não serve para nada, para nada mais do que aprender a viver”
Ortega y Gasset, Obras Completas.

                      “Eu pretendo uma nova ordem (…) de homens superiores, junto dos quais as consciências e os espíritos atormentados irão buscar conselho” 
                       Nietzsche, Vontade Poder, III volume, p. 108.

Pretendemos relacionar esta reflexão pessoal com os conhecimentos veiculados no Colóquio “Filosofia, Crise, e Consciência Social” 2016, de modo a os podermos operacionalizar na didática e na pedagogia filosófica. Centraremos a reflexão crítica na oficina orientada por Jorge H. Dias, Aconselhamento Filosófico e Felicidade; e recorreremos às apresentações da Filosofia das emoções (outra oficina); bem como às conferências acerca de Paulo Freire e a Praxis da liberdade; e Reconhecimento e alteridade.

Iniciamos com o pressuposto de que uma Crise apenas pode ser superada se existir uma consciência clara acerca da mesma, devendo-se estabelecer um diagnóstico dos problemas filosóficos, que lhe são intrínsecos, tais como: angústia perante a morte; desespero perante o futuro; dificuldade de gestão de conflitos; falta de sentido; frustração perante o desejo de felicidade; indecisão perante dilemas. A consultadoria emerge enquanto via dialógica da filosofia prática.

Na tradição filosófica o diálogo inaugura-se com Sócrates e Platão, inquirindo sobre o que é a virtude? Platão associa o Bem ao saber verdadeiro e o mal à ignorância. Aristóteles aborda a virtude, recorrendo à busca da vida boa (felicidade) através da ponderação que supere a carência e o excesso. A atualidade, apesar de hedonista, nem sempre se verifica uma efetiva vivência da felicidade, por causa do império do vazio de sentido que instalamos nas vidas, mais centradas no ter do que no ser. Pelo que urge estabelecer critérios que estabeleçam um projeto de vida que nos consciencialize e mobilize para refletirmos, e nos responsabilizarmos.

A consultadoria recorrerá às perguntas pertinentes que permitam aos indivíduos ultrapassar os problemas existenciais, aparentemente irresolúveis. Quiçá os problemas residam em vícios ou falacias de pensamento. E, o objetivo será pensar bem para viver melhor. Segundo esta terapia cada qual deve potenciar e elabora a sua vida. Sendo necessário estabelecer um diagnóstico através de inquéritos, que permitam avaliar em cada sujeito os recursos e carências. E reaprendendo a escutar a voz do ser. Neste sentido, elaborem-se questionários personalizados, com perguntas diretas e pertinentes, de forma a possibilitarem que se gerem outras decisões, centradas sobre o pensamento mais adequado e coerente em conformidade ao projeto de vida de cada ser humano. Para ulteriormente se auxiliar cada um a refletir coerentemente e a cumprir esse projeto. Enquanto indicadores capazes de superar a crise Jorge H. Dias encontra os seguintes valores: generosidade, esforço, desejos, interesse nas coisas e pessoas, amor. Deve ser a dimensão positiva a guiar a vida: procurando a plenitude; a valorização do arrependimento; a par dos projetos que dão sentido e coerência à vida; qualquer boa história de vida será uma motivação. Se o que está em causa neste projeto é a vida boa, ou felicidade, constatamos o que pensa Jorge H. Dias: “A felicidade é um estado de consciência que avalia o resultado dos projetos ao longo de toda a vida”. O método pretende, na área da filosofia prática, identificar projetos na vida da pessoa; analisar a estrutura de um projeto, relacionando-o com a vida da pessoa (valores e sentido); agrupando projetos e definindo aplicações; reforçar a “filosofia de vida” da pessoa; verificando a sua realidade e importância. Fundamentada na filosofia de Julian Marias, pois uma moral com rigor intelectual tem que “estabelecer o mapa real de cada vida humana”.

Neste contexto, mostrou-se a urgência de refletir sobre a atualidade e a consciência da crise. Decidimos explanar no relatório um projeto que envolva esse tópico na formulação de questões que levem em conta o ensino da Filosofia. Tendo em consideração os problemas levantados no mundo atual, onde a vertente tradicional teórica dos programas podem não resolver cabalmente as necessidades espirituais, culturais e filosóficas presentes, torna-se premente dar resposta à questão: Como tornar necessário o ensino da filosofia, hoje, perante a crise? Desejamos reformar o programa em vigor, a partir deste relatório, criando um capítulo novo, a lecionar em alternância aos “Desafios e horizontes da Filosofia” no final do programa do 11º Ano de Filosofia. E no décimo ano reinserir estas temáticas na unidade dos valores éticos, criando novos tópicos e subtemas nesta área.

Devemos orientar a crítica filosófica para uma das suas funções recorrentes: a reflexão da prática da vida quotidiana (circunstância). Queremos questionar, criticar, apresentar teses e argumentos, que tornem viável a emergência de um pensamento que gere equilíbrios e ideias para os novos tempos. O pensamento filosófico, apesar da universalidade e intemporalidade, emerge num contexto histórico e cultural. Propomos a meditação pessoal que traga o recolhimento num tempo de ruído, caos, e excesso de informação. Perguntando, como adequar a nossa mente a um mundo conturbado? Restaurar o diálogo consigo mesmo e com os outros, centrando o pensamento na relação dialógica da reflexão e da comunicação. A filosofia deve-se adaptar aos novos tempos, tornando-se atuante, continuando o seu trabalho: nas redes sociais, nos blogues, nas plataformas? Se não trair a busca autêntica de reflexão crítica: a filosofia deve realizar-se onde estão as pessoas. O mundo social pode virar as costas à filosofia, mas esta não pode recusar-se a cumprir a sua missão, sobretudo na crise e na adversidade. Em rigor, a filosofia renova-se nos contextos complexos e difíceis.

Recorremos neste contexto à pedagogia social de Paulo Freire, apresentada por Joaquim Melro: defendendo a coerência entre os princípios do agir e do pensar. Enraizando o pensamento na praxis, e pela inevitável compreensão transformadora do mundo social: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Freire propõe o desenvolvimento da consciência crítica, ultrapassando a consciência ingénua, pois se esta nos faz pactuar ou submeter ao poder instituído; aquela tem a função de alerta-nos para a crítica transformadora, em que se deve exercer o pensamento e a pedagogia, de tal modo que evite, “As terríveis consequências do pensamento negativo, por serem percebidas muito tarde”, ou seja, as crises latentes devem ser refletidas criticamente, de forma a serem detetadas e ultrapassadas com soluções mais abrangentes no tempo certo, passando inevitavelmente pelo reconhecimento “amoroso” entre quem ensina e quem aprende, de modo a que este não pretenda reproduzir os modelos do opressor. Neste sentido, o dever do intelectual é tirar do silêncio a voz do outro, nomeadamente dos mais desprotegidos. “Não é na resignação, mas na rebeldia em face das injustiças que nos afirmaremos.” Logo o trabalho pedagógico deve ser libertador. Noutra linha de pensamento, se a crise no mundo implica as mudanças, interroguemos sobre os significados desses novos rumos, assim como, avaliemos as alterações mentais, e dificuldades específicas das crises, que as próprias transformações trazem consigo; abordando noções como crise de valores e criação de novos valores, pois o que está em causa é orientar o ser humano para um modo de vida em alternativa às ideologias de massas. A filosofia deve fornecer ferramentas concetuais e métodos de raciocínio aos nossos jovens, permitindo-lhes serem protagonistas da aprendizagem através da descoberta de questões, ideias e resultados que respondam às suas dificuldades (crises) particulares e globais. Com este fito, voltemos a repor a noção de laboratório do pensamento, onde se forjem recursos intelectuais, culturas e espirituais, os quais para lá de compreenderem as transformações das mentalidades, possam facultar outras perspetivas e horizontes para a atuação presente e futura.

Face as sugestões do presente coloquio, propomos um titulo que adapte os conteúdos aqui refletidos às exigências da docência no ensino secundário: Prática filosófica do cuidado de si em tempo de crise, a qual deve ser uma espécie de terapia existencial, constituído pelos subtemas:
1. Da crise às soluções.
2. Da ética à prática.
3. Da poética ao pensar racional.
4. Vivências teóricas, espirituais, e afetivas.
5. Métodos de pensamento.
6. Técnicas de meditação.
7. As resoluções estoicas: o cuidado de si; o auto domínio.
8. Criação de novos valores, a vontade de poder criativa enquanto abertura ao outro (Nietzsche/Lévinas).
9. A vontade de prazer (Freud).
10. A vontade de sentido (Viktor Frankl, J.H. Dias).
11. Os autores de língua portuguesa e as propostas de retorno do pensamento à consciência critica, comprometida com a vida pessoal e social.

Explanação sucinta dos tópicos:
1. Da Crise às soluções. Diagnóstico do mal-estar civilizacional. O prognóstico da terapia.
2. Do património da história da filosofia acerca das teorias éticas às aplicações nas práticas contemporâneas.
3. Na poética do pensar encontrar a origem do pensamento criativo, onde radica a produção de pensamento racional que gera soluções originais. Ou seja, certa poesia é a matriz do pensamento genuíno que interroga o próprio ser, e logo está por trás da criação escrita; pois, na poesia encontra-se o pulsar da invenção e da novidade.
4. Vivências teóricas, espirituais, e afetivas. Compreender o mundo e o homem para os cuidarmos e transformarmos, a partir do alargamento das figuras do pensamento, e dos modos espirituais de vivências teóricas/práticas/afetivas. Exercitar o pensamento para melhor pensar e viver.
5. Recurso à diversidade de métodos filosóficos: maiêutica; dialético; fenomenológico; hermenêutico; consultadoria; logoterapia; “PEACE”…
6. Exercícios de meditação: regressiva…
7. O estoicismo e os conceitos: ataraxia e auto domínio. Recurso a exercícios de “pensar no pior” em cada caso, e vice-versa, de modo a nos tornarmos resistentes face às adversidades da vida (resiliência).
8. Se o homem não é predefinido, encontra-se em aberto a formação de cada ser; daí a busca de soluções de criar/renovar os valores, tomando a criatividade enquanto ponto de expansão da vontade de poder criativa numa relação de comunhão com o outro.
9. A análise de si a partir de um mergulho nas forças e símbolos do inconsciente pessoal e coletivo, onde a busca do prazer se subordine ao conhecimento do funcionamento humano, que se orienta segundo o princípio da realidade.
10. A vontade de sentido enquanto busca constante do pensamento adequado a cada problema concreto. Nas estratégias da consultadoria e logoterapia o sentido da vida é conquistado: no amor/amizade; na obra criada; na reelaboração do sofrimento.
11. Soluções de autores de língua portugueses (Paulo Feire, Agostinho da Silva, Vergílio Ferreira; Eduardo Lourenço…). Levar em conta bons artigos e obras produzidas no arquipélago editorial das universidades (a partir de atas de congressos).

Este modo de abordar o programa de filosofia deve alicerçar-se numa didática que se apoie em exercícios de escrita criativa, que desenvolvam o conceito poético, ensaístico, hermenêutico que estão na origem do pensamento filosófico autónomo. Bem como na implementação de estratégias ativas que, entre outras metodologias, assimilem o universo das novas tecnologias (TIC).

Dez “regras” para estimular o usufruto do laboratório da mente, ou seja, das aulas de Filosofia. 
1. A criatividade autónoma trabalhada com o exercício do pensamento e da palavra critica.
2. Desfrutar e examinar experiências novas (afetivas/mentais) individuais ou em grupo.
3. Pensar e escrever com o rigor e liberdade com vista a protagonizar a sua felicidade.
4. Convocar sempre a inspiração; o património filosófico, a memória; o trabalho; a cooperação.
5. O pensamento filosófico reflete-se nas artes: literatura, cinema, musica, dança, teatro…
6. Tirar proveito da tentativa, experiência e erro… e da tentativa de correção e superação.
7. Revisitar as memórias pessoais e das obras filosóficas para potenciar a experiência do pensar.
8. Aprender a interpretar e a ler para melhor pensar e escrever o seu projeto de vida.
9. Pensar e comunicar com rigor, tirando prazer de todo o processo criativo, partilhado. 
10. Sonhar... como se a utopia abrisse renovadas portas ao futuro pessoal e coletivo. 

Um modo de operacionalizar estas propostas passa pelo recurso à avaliação fundada na produção de ensaios ou de dissertações, que envolvam mais profundamente os intervenientes na relação pedagógica na busca mais autêntica e personalizada (do conhecimento, cuidado de si, e cuidado do outro, envolvendo a conceção do respetivo projeto de vida).

Carlos Alfredo do Couto Amaral


Relatório apresentado ao CENTRO DE FORMAÇÃO ESCOLAS ANTÓNIO SÉRGIO
sobre o Colóquio “Filosofia, Crise, e Consciência Social” 2016

quinta-feira, 21 de maio de 2015

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Depois da experiência estimulante que foram a primeira e segunda fase da oficina de escrita (no Barreiro); preparamo-nos agora para retomar a terceira etapa que se iniciará em outubro e terá uma periodicidade quinzenal até julho. No mesmo local aprazível, tencionamos romper com metodologias tradicionais e relacionar a escrita com outras áreas artísticas. Teremos em mãos materiais que motivam o ato criativo, como placas de xisto, tintas ou plantas … Nesta linha, a escrita terá a designação de, “Escritório em AcTO”. As inscrições estão ao vosso dispor! Inscrições/informações para telemóvel 9190045952 Ou Carlos Amaral (carlos_alfredo_02@hotmail.com) Joana Araújo (joana.7arte@gmail.com) A oficina decorrerá a partir de Outubro no espaço Quinta Dr. Pacheco, Vila Chã - Palhais, BARREIRO (a 500 metros da igreja de Palhais) Para mais informações (incluíndo trabalhos expostos) consulte o blogue: http://orrisco.wordpress.com/ Cumprimentos amigos de Carlos Amaral & Joana Araújo

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Para informações sobre Oficina de Escrita Criativa, por mim dinamizada, consultar o blog: O Risco http://www.orrisco.wordpress.com

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Irá decorrer uma Oficina de Escrita Criativa orientada pelos formadores: Carlos Amaral (carlos_alfredo_02@hotmail.com) Joana Araújo (joana.7arte@gmail.com) Inscrições/informações para telemóvel 9190045952 A oficina decorrerá em julho no espaço Quinta Dr. Pacheco, Vila Chã, Palhais, BARREIRO (a 500 metros da igreja de Palhais) Tempo de duração: 4 X 120 minutos (para adultos: 17-95 anos) entre as 19:00 h e as 21:00 h 4 X 90 minutos (para crianças/jovens: 8-16) entre as 17:00 h e as 18:30 h (Os dias da semana serão estabelecidos em conformidade com os interesses da maioria dos inscritos). Em cada sessão será exercitada a escrita em espaços diferentes na Quinta (onde decorrerá a oficina) em função dos objetivos pretendidos. Com edição dos trabalhos realizados num blogue intitulado: O Risco (http://www.orrisco.wordpress.com) PARA MAIS INFORMAÇÕES CONSULTAR ESTE BLOG Questões: O espaço influencia a escrita? Será o corpo parte do processo da escrita? O domínio da técnica adequada permite o desenvolvimento da competência? Competências a desenvolverem: Domínio fluente da palavra. Motivação para qualquer género de escrita. O prazer/gozo da palavra através do jogo (exercícios). Diferentes utilizações da palavra. Desenvolvimento da competência crítica. Produzir: crónica/ diário/ poemas / histórias curtas… Interligação com outras artes (música, dança, cinema, teatro...) Motivação para a leitura. Os materiais necessários serão fornecidos aos participantes.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

domingo, 27 de março de 2011

DEMANDA POÉTICA AO INTERIOR DO SER

Nesta demanda poética que nos propomos encetar, se a ambição é grande, o percurso ainda vai ser maior e a queda será incomensurável. Na sensibilidade, e no pensamento, estabelecemos um deslocamento interno, com o fito de chegarmos ao mais fundo de nós. Numa viagem ao interior do próprio ser, criando uma geografia desse cosmos com arquipélagos e mares internos, onde navegaremos para alcançarmos a nossa essência. Tal viagem ao interior é uma Odisseia, onde nos perdemos no mar, para ir ao encontro do mais profundo de nós. Dai perguntarmos, quanto é necessário sofrer para regressar a si? Quem nos impede? Quem nos impele?
Vamos navegar no oceano imaginário da literatura, onde apenas existe um erro fatal: não quer partir, não querendo mudar. O erro fatal é parar, evitando a constante procura. Devemos colocar-nos a caminho, seremos apenas nós mesmos na medida em que estejamos em busca. E o poeta não quer apenas viajar no mundo das ideias, elegendo antes inventariar na linguagem, criando clareiras e construindo com sensações as metáforas no percurso do próprio ser. Para tal inicia a aventura marítima onde todas as formas são viáveis, em fluxo e refluxo que revelam os elementos identitários dos símbolos, como a saudade. Onde estamos longe à procura de quem ansiamos ter por perto. Tal é o motor do retorno de Ulisses, mas também de todos aqueles que se perdem e naufragam pelo mar adentro da poesia...
Para mais a navegação poética não se confina à palavra, nem à emoção, nem ao sujeito. Ela é o reconhecimento cosmológico dos espaços internos mais profundos e dos espaços externos mais afastados. Exigindo uma geografia da alma, que nos guie no sentido panteísta da nossa cultura poética, encontrando os passos e as pistas para o retorno à casa do ser. Tais explorações cosmológicas não envolvem apenas a superfície, mas a escalada aos cumes e o mergulho no abismo da alma humana. Explorando na escola do fluxo dos sentidos o reino da imaginação, nadando muito além da perdição. No fundo, é necessários perdermo-nos para encontrarmos o outro daquilo que somos: o desconhecido, o nunca visto, o nunca entendido que nos arrasta para os profundos mares de onde se levantam as neblinas do mistério. A tarefa é navegar, sem orientação à vista, numa busca da palavra filosofal que reflicta a demanda mística da pedra de tal quilate. Só então o poeta diz, e garante, a fala do ser, pois previamente, dominou a arte do silêncio e no vazio escutou a ressonância da intuição criadora.
Prevendo o que se transformará, abrindo portas ao futuro do homem, e aos aspectos que o projectam em novas aventura através dos oceanos da arte. Mas, ser poeta em português, implica atender ao oceano da língua e da cultura, com sinais a demarcarem a passagens para outras margens. É a espiritualidade elevada ao interior da paisagem panteísta, tão arreigada na cultura lusa. Será alcançada, enfim, a saudosa Pátria espiritual da Boa Aventurança, saudoso das terras que abandona para regressar. O poeta avalia com graça tal coração repartido, onde é preciso abandonar para alcançar, e partir para longe para chegar ao mais perto de si.
Tal dialéctica poética é o guia do viajante, estabelecendo as regras e os procedimentos para o náufrago. E assim pode escolher o que deve abandonar. A amada para salvar o poema, ou o poema para salvar a amada? Escolhas irresolúveis, pois no fim naufragaremos definitivamente. E, nada levaremos, além da beleza criada, e das experiências que nos desenham o mapa do labirinto interno do sentido. Como refere Teixeira de Pascoais: “O mistério é a própria acção, o drama íntimo da nossa poesia, porque nela a sombra das Coisas e a luz do nosso espírito estão em perpétua luta criadora” . E também é dito por nós, em O Sereno Fluir das Horas, “Procurem-me nos enigmas / responderei como esfinge” . Para logo apresentarmos o nauta “(Des)Norteado, numa peregrinação em metamorfose interior, em demanda da profunda consciência do ego. É uma viagem paradoxal no desassossego num fluir suave que adivinha a agitação do tempo. Nessa procura, o obreiro das palavras constrói o barco cósmico, através da surpreendente metamorfose do verso numa (des)contrução do significativo, por onde se revela a passagem para o nebuloso sentido da existência na demanda inovadora do acto criador.
Tal arte de marear tudo abandona no instante em que zarpamos para outra demanda. Só assim o essencial irá connosco, iluminando o labirinto interno, pois apenas é necessária uma estrela polar que dê o Norte à bússola . É uma poética para náufragos. E assim, nada fica perdido quando tivermos que mergulhar bem fundo para encontrarmos a pérola mais preciosa que é a nossa essência. Nesse magnífico resíduo interno está inscrito o mapa metafísico, que encontraremos apenas se nos colocarmos em risco.
Para o poeta da existência tudo é elucidado, e tudo é alucinado – indo para lá do cabo do mundo encontrar a circunferência da alma, que lhe dirá: tudo é idêntico e todas as viagens levam ao mesmo. Tal apenas se pode concluir depois de encontrarmos as diferentes personagens que faltavam no diálogo que emerge do mar da alma. Mas nada é dado, tudo é conquistado. Eis a identidade conquistada pelo marinheiro do infortúnio, que no fim sempre há-de encontrar as ilhas Afortunadas.
Se a demanda chegou ao fim, então escutemos o silêncio, onde o ser poético nos falará ao ouvido…
Carlos Alfredo Couto Amaral