quarta-feira, 20 de abril de 2016

POSFÁCIO de ALPINISTA DESCENDENTE


 


No silêncio dos dias intensificam-se impulsos, dedilhando as cordas da poesia, entre a ebulição dos sentimentos e as emoções meridionais, num tempo por definir, onde se pincela o lado bom das palavras, formando um tapete para o “Alpinista descendente” onde o poeta toma em si uma multiplicidade de sensações.

Neste tomo de poesia, Carlos Amaral tenta comunicar, fazer passar as suas ideias, aquilo que vai no seu âmago e “as palavras sabem a música”! Quantas letras no fundo de si, em delírio? A força de ser abre diversas portas para o mundo e a necessidade de encontrar a realidade desnudada é outra questão intensa, patente na obra em causa. Procura a normalidade ante a agitação do quotidiano e os seus versos primem essa situação onde o ar parece rarefeito.

A natureza tem uma função apaziguadora, entre o vento, a água, as libelinhas e os nenúfares… o lírio azul, a borboleta e a neve… elementos na caça ao colorido. Imagens fulcrais estas, para nos levar de uma forma mais sublime ao mundo da realidade, no namoro dos arquétipos da natureza.

Pautam-se ritmos, o dedilhar da pele, a passagem dos dedos, o “rio que refresca os pés” e “o horizonte alivia a mente” do poeta. Qual perfeita orquestra pronta para fazer tocar-nos a alma! Todo um corpo mental e físico de sensações “abrindo a imaginação”, elevando um cálice de vinho, bebendo os poemas um a um e nunca serão os mesmos. A poética aqui presente pauta-se por odores coloridos, tentações e inquietações onde os relógios celebram o seu tempo em espiral, segundo a segundo no corpo que oscila no silêncio dos prazeres ao mausoléu do silêncio. Entre tantas sensações qual a sensação de se estar na relação com o mundo?

Neste seu livro “Alpinista Descendente”, avança por um percurso graduado, tomado de energias e impulsos que se vão renovando, na encosta da dúvida, para “encontrar medida à luz da escala reduzida”. Ritmos que o abatimento cardíaco rouba ao silêncio, na ascensão da vida a um arremesso de réstia fria na montanha da existência.

A descrição e imagens que Carlos Amaral usa nos seus trabalhos poéticos são de uma riqueza maior, fogem ao vulgar, imprimindo um manancial de figuras estilísticas, acaso se faça uma leitura atenta da sua obra. O ritual poético concebe um ouvido atento que desperta a atenção do leitor, deixando uma janela aberta no relicário vático.

Metamorfoses de sentido entre as portas invisíveis da poesia e o tempo que possibilita a mudança, por diferentes timbres e aromas de sentido. A inquietação da alma escreve nos laivos do arco-íris, uma panóplia de cores que traduzem a diversidade de sentimentos e emoções, um “isto”, que colhe o “pólen nos apetites da luz”, lugar secreto da interpretação que o amor oculta, discretamente.

Esta poesia ilumina a mente dos leitores, traça realidades ímpares, por vezes “espelhos paralelos”, infundindo o mistério da imagem e dos mitos que são um motivo de reflexão de um aqui cimeiro. O poeta nesta obra apresenta o seu estilo próprio e o traço do “Alpinista Descendente” que transpira de sentidos metafísicos ao tanger da metáfora do ser.

Da leitura sobranceira assiste-se a realidades e prolongamentos da aurora boreal, na decantação das sensações a uma suposta metamorfose do espírito, pautando tempestades platónicas ao crivo de Lao-Tsé, por novas esferas de conceber o mundo; tempestades de sentir e divagações poéticas entre o juízo do gosto que por vezes permite trocar as regras do jogo na relação com os outros. Carlos Amaral no “Alpinista Descendente” realça a importância dos elementos da natureza, entre a palavra e o silêncio, o sol e a lua, ao simples beijo e a melancolia da idade à delicadeza do colibri e o seu triunfo de sorver o mel das flores emplumadas, harmonia e realidades complementares. Neste seu trabalho assiste-se a uma força original, a um fluxo que gera uma nova força, por um princípio filosófico que absorve e nos deixa lançados a novas respostas num lago de desejos e ritmo, poesia de uma nova postura, fugindo às métricas e rimas tradicionais e cheias de monotonia... Grandezas e posturas no seu poema: “Perícia do voo”, onde se “abrem portões ao fundo das sombras”, é este voo, o convite que o Carlos Amaral nos faz, na tentativa de desprendimento dos relógios do tempo, do acaso entre os casos, das resistências, possam ser políticas ou não, bem como aos impulsos que nos assaltam quando menos esperamos. A mente é a central do mundo de cada qual, absorve o que a envolve e a mesma devolve o que não interessa e “devia entregar-me à alegria / que a tristeza é manca / cega de um olho / em luto de algo a perder”… e navega-se entre afetos e fantasia, vezes sem conta confundindo o caminho traçado um dia, carecendo o nome para o completar…

E para onde vamos? E se vamos, porque vamos? Onde é o fim do mundo? Num dos seus poemas magistrais “Intuição poética”, atenta-se à sensibilidade, ao significado, ao verbo com o intuito de comunicar, mitigando o tédio, com a esperança de imprimir a sequência dos aromas… e o Carlos Amaral é “profeta, adivinho da sensibilidade…” e o “poeta é um fragmento das estrelas”… “pedaço de palavra emocionada”! E o que resta do plenário poético? “Intuições” que “amassam o grito à solidão”, sendo esta a volúpia e a companhia, no exílio do encarceramento poético; afinal o que é que está no poeta e o que é que se separou de si?

Sonhos e delicadas especulações… são os trilhos do amor, o deserto e o banquete das sensações e tudo isso confere forma à alma do poeta, apesar das inquietações existenciais a que nos lança, deixando-nos “na ilha do tempo…” onde “o sentimento dá sentido / galga a aridez do deserto / Cala o silêncio no peito…” e “desperta a aurora das emoções” uma nova vertente de conceber o que está em torno daquele que sente.

A poesia de Carlos Amaral conduz-nos a um arrebatamento, pelo puro sentido da sua forma, quando o leitor ou ouvinte se deixa tomar por ela; no traço audacioso da sua escrita, solta um toque especial por cada verso; como a conjugação das notas numa composição, executadas na lira das palavras que bebem da interioridade; o belo enceta na sua poesia uma relação, entrega efusiva de sentimentos e emoções, independentemente da sua natureza, assim, o poeta absorve do princípio do prazer, face à simetria do sentido, um mundo cheio de cadências e pontos de execução que vão dando sentido à sua vida.

Palavras do diário da alma na sinfonia da viagem existencial… escrever é existir! O poeta deixa-nos conceitos do sentir e da imaginação concebendo a sua epopeia filosófica, na destilação do verso, pelo marulhar da metamorfose das formas poéticas, nas ruas do sonho, ao ritmo das situações a que se expõe, guarnecendo a malha de um novo mundo. O trabalho presente é um convite à reflexão filosófica, de caris ontos existencialista e assim se navega nas palavras entre as sensações e a consciência de situação. O momento por cada vez é sempre único, procura-se a essência daquilo que é, no esplendor metafísico das Ideias, à moda platónica! Neste livro assiste-se a uma viagem poética com imensas estações entre o sensível e o inteligível, no diverso das rédeas da estética literária e filosófica. O convite fica feito…

Carlos Amaral está de parabéns por este seu exemplar trabalho “Alpinista Descendente”, fica o convite para a leitura da obra, onde deve ser feita devagar e saboreando o teor dos conceitos e tónus poético.



Tavira, 02 de Janeiro de 2016

Jorge Ferro Rosa

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Na vertigem do Alpinista


Os músculos tensos
vencem as alturas
o espírito encontra
a dádiva no ar rarefeito
O Alpinista Descendente de Carlos Couto Amaral, trazido a público pelas Edições Colibri, trata estados emocionais experienciados entre píncaros e vales: na Estrela ascende com quatro estações num dia; nos Picos da Europa escala entrincheirado entre ravinas; alcançando nos Alpes a vertigem e a beleza que sacodem o aventureiro. Na viagem pelas montanhas busca a plenitude, as sensações naturais, a serenidade. O Alpinista abandona o frenesim urbano e alcança o que ambiciona: neblinas, córregos de água, plantas exóticas, sons bucólicos, ares rarefeitos, tranquilidade… Renova a ousadia e a entrega nas arriscadas sendas, que aliviam a alma do peso e da saturação. Enfim os sonhos concretizados reforçam a vontade. E, as narrativas poéticas lapidam sensações brutas.
O poeta
é um fragmento das estrelas
é a gota do mar
é palavra emocionada
O Alpinista Descendente faz a apologia de Sísifo feliz, nos atos que trazem ao homem certa grandeza, mesmo que vã, consciente dos esforços na ausência de transcendência. O mesmo é dizer que superamos o absurdo através do esforço e da luta.
Em queda
Sísifo encontra motivos
no intervalo proibido
O Alpinista Descendente, com o despojamento, na ascensão liberta-se do peso; já ao descer integra o pensamento, aligeirando o mundo das fragas vencidas.
Desce
à planície
alegria
sem peso
O poeta concretiza a viagem simbólica… O Alpinista Descendente quer ar puro, a renovação, ampliando horizontes que dilatem a alma:
irei ao começo dos tempos em demanda do segredo
irei ao cume da montanha em demanda da aurora
A cinestesia identifica a dinâmica da aventura na demanda que cruza desejos, ideais, sensações, imagens. No quarto livro poético, Carlos Couto Amaral apostou na depuração estética, na quase ausência de pontuação, e na verticalidade da escrita sob a analogia do percurso escarpado.
Sonha
Ícaro
a furtar
a cera
às abelhas
e a altura
em metamorfose
escuta
atrás
das portas
invisíveis
O alvoroço da escalada liberta adrenalina. Na disputa com o gigante o prazer é proporcional ao esforço. Há um deslize de palavras colhidas na inspiração do acaso. A serra sem um caderno pode tornar-se esmagadora, mas a vontade da montanha exprime-se por meio do poeta, superando opressões e receios.

Performance de "Alpinista Descendente"


domingo, 10 de abril de 2016

Abraço da serpente


O filme do cineasta colombiano Nilbio Torres, Abraço da serpente, aborda a aventura de um alemão Theo na busca de uma planta curandeira misteriosa: a yakruna, uma droga com o poder simbólico e terapêutico de fazer sonhar. O explorador europeu gravemente doente procura a ajuda do xamã Karamakate um dos últimos índios da tribo Cohiuanos, para lhe servir de guia no percurso do rio Amazonas.

Mostra-nos como os índios nos sonhos encontram soluções para as doenças do espírito. É uma psicanalise à medida dos símbolos indígenas. Noutra história posterior o americano Evans, lendo os diários de Theo procura ter mais êxito, na mesma demanda, por essas paragens entretanto transformadas.

O filme realça o encontro de civilizações no confronto do eu com o outro; a par, dos receios, incomunicações, aproximações e afastamentos e do processo do esquecimento para assumir nova identidade ("endoculturação").

Os índios acusam os brancos de trazem: o domínio pela força, a guerra e a morte. É o caso dos seringueiros que desapossam a dignidade, a identidade, escravizam, mutilam… Expropriam as matérias-primas da floresta e o território. Rompem os equilíbrios, provocando hecatombes sociais, cataclismos ecológicos e culturais. O abraço da serpente representa a alegoria simbólica de uma cultura a estrangular e aniquilar outra.

No encontro do “eu” e do “outro” surgem crises de aprendizagem entre civilizações diferentes. O índio auto despojado de bens quer manter-se em sintonia com a floresta – preservar a cultura ecológica. Por seu lado, Theo traz a bussola para se orientar – mas prefere perder a amizade dos indígenas, do que ser desapossado desse utensilio. Justifica que aqueles perderiam o modo natural de se orientarem, abandonando um património cultural integrado na floresta.

O filme pela capacidade de nos fazer pensar, atualiza a reflexão simbólica que se encontra nas nossas mentes em estado de saturação. Propõe o despojamento libertador, uma viagem de purga e catarse. É um filme obrigatório para detetarmos as raízes primitivas que ainda estruturam a nossa mente profunda. Defende a preservação da diversidade das culturas humanas, que ainda restam, por nos poderem ensinar muito acerca de quem somos. Afinal, o que é o homem?

sábado, 9 de abril de 2016

Métafísica estética do jovem Nietzsche

NATUREZA E FUNÇÃO DO SÍMBOLO NA METAFÍSICA ESTÉTICA DO JOVEM NIETZSCHE por Carlos Alfredo do Couto Amaral Dissertação de Mestrado em Filosofia, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2000, 205 páginas.

1. Nesta dissertação analisámos o conceito de símbolo tal como o jovem Nietzsche o tratou entre os anos de 1871 a 1873, correspondendo à época de O Nascimento da Tragédia. Em termos gerais, Nietzsche abordou a problemática da função simbólica a partir do mito e da arte como domínios integrantes duma tarefa hermenêutica. A este propósito enunciamos o seu enraizamento num período da filosofia que foi dos mais marcados pela simbólica, referimo-nos concretamente ao romantismo alemão.

Desde o início que destacamos na conceção de Nietzsche a transposição como a categoria fundamental do símbolo, a qual indica o transporte e a mudança de uma imagem e de um significado para outro contexto. O símbolo é assim apresentado como um elemento essencial da comunicação que relaciona as diferentes dimensões em jogo na estética. Para este filósofo, o símbolo e a metáfora equivalem-se parcialmente enquanto processos artísticos que estabelecem relações inventivas. De forma implícita Nietzsche mostra-nos que, apesar de existirem traços comuns entre o símbolo e a metáfora, tal não é suficiente para os confundir e identificar, pois o símbolo radica na profundidade do inconsciente musical, enquanto a metáfora se processa à medida da dimensão da linguagem poética, a qual em último caso tem uma matriz literária. Neste sentido, o símbolo pretende estar próximo dos fluxos da vida.

Não reduzimos o símbolo à metáfora, pois a música tem um papel essencial na metafísica estética de Nietzsche sem se subordinar à imagem. A relação da imagem com o símbolo corresponde à intuição que leva o sujeito a conceber a presença do objeto. A força da fantasia vem desempenhar aqui a função de um pensamento que se desenvolve através de associações livres das imagens. Nesta sequência, Nietzsche trata a imaginação como a faculdade simbólica por excelência, que estabelece a unidade entre as diferentes imagens através de conjeturas audaciosas. Na verdade, o sujeito ao fantasiar estabelece comparações que transpõem os significados para domínios desconhecidos, como acontece com a máscara, a qual revela e esconde a força da vontade, transfigurando completamente a realidade em causa.

Entretanto, pensa Nietzsche que o corpo concentra e transfigura através da simbólica da dança e do bailado as características fundamentais da essência da natureza no que se refere à força e à energia. A força e a potência aqui retratadas permitem compreender a própria transposição e transfiguração simbólica da arte. O nosso filósofo pensa que a partir da relação dialéctica entre a força e o significado (inerentes ao símbolo) podemos compreender as forças da natureza e o modo como estas transitam para a arte.

2. Ao investigar a origem do símbolo na força matricial que o sustenta, Nietzsche detecta que existe um fundo inconsciente orgânico e 'sapiencial' que é necessário tornar consciente. Apesar disso, não existe para ele uma ponte segura para a transposição deste elemento para aquele, pois o nível inconsciente não se deixa submeter aos princípios formais da lógica que são a panaceia onde se esconde a fragilidade do racionalismo abstracto.

Em contrapartida, considera Nietzsche que os impulsos cegos do organismo são transpostos de modo simbólico, primeiramente para as vivências sentimentais e depois para as actividades culturais; ou seja, o inconsciente é a fonte energética do processo simbólico. Identifica ele nessa potência subterrânea uma torrente que atravessando os sentimentos se constituem como referenciais semânticos com a capacidade de produzirem novos símbolos.

Na perspectiva do nosso filósofo todo este processo é indirectamente controlado pela vontade; e, como se sabe, a categoria da vontade no jovem Nietzsche depende da filosofia de Schopenhauer. Com efeito, ambos os filósofos concebem o ser e o mundo como entidades dinâmicas, pensando que o mundo é uma representação e manifestação da vontade. Implicitamente o génio aparece aqui como a entidade "subjetiva" que sente a força da vontade a pensar com ele acerca da produção das novas formas; o que significa que o génio é o culminar dessa orgânica da vontade, procurando dominar a 'Força da Vida' para a partir desse fundo inconsciente poder criar as formas simbólicas, as formas míticas, as formas poéticas.

3. No desenvolvimento de tal aspecto, o mito e a arte desempenham em Nietzsche uma função simbólica acrescida na medida em que os utiliza, altera e recria como narrativas e ilustrações do seu próprio modo de pensar. Logo ao entender o que é essencial no pensamento deste filósofo, convertemo-nos em intérpretes dos seus mitos e dos respectivos símbolos artísticos. No entanto, se já vimos como nascem os símbolos, agora convém observar como é que eles desaparecem.

No prosseguimento dos românticos, o jovem Nietzsche critica a ausência das crenças míticas no que se refere à modernidade, revelando a decadência que é provocada pela racionalidade, a qual tudo quer explicar e desvendar, banindo o espaço da incerteza, da dúvida e do espanto. O mesmo é dizer que o "Iluminismo" ['Aufklärung'], ao projetar uma compreensão das crenças, dos sentimentos e dos símbolos acaba por os destruir. Na perspectiva de Nietzsche, o desaparecimento dos símbolos míticos leva à uniformização mental e à falência da civilização moderna que "perdeu a pátria mítica" por se ter desenraizado culturalmente das forças criadoras da vida. Ao diagnosticar este ambiente de decadência, Nietzsche considera, no entanto, a possibilidade duma regeneração por meio do retorno nostálgico ao mítico, a partir de um diálogo vivo entre a música e a filosofia. Tudo isto porque a música é a área cultural em que os símbolos ainda vivem, constituindo-se assim como o centro regenerador da criação e do pensamento. Aqui recorre-se à inspiração de Wagner, na medida em que este ousou pensar por meio de acontecimentos visíveis e sensíveis através de um envolvimento mítico. Considera Nietzsche que em Tristão e Isolda e na trilogia do Anel dos Nibelungos encontramos um género de narrativa dramática que desenvolve as ideias metafísicas sob a forma simbólica. A música constitui desta forma a nova inteligibilidade do pensamento sem negar a sensibilidade, permitindo refletir sobre a arte a partir dela mesma. Pensa Nietzsche que a música de Wagner é um mote para a reflexão, possibilitando uma compreensão metafísica mais elevada do que qualquer filosofia já conseguiu. Como corolário, Nietzsche considera que a música é o espírito que origina a tragédia, participando na génese do coro (que é o elemento da união mítica entre a música e a palavra). Deste modo, o mito é o elemento comum que permite estabelecer a mediação entre a tragédia grega e o drama musical wagneriano.

Posto isto, pretende Nietzsche uma fundamentação mais recuada, procurando na Grécia Arcaica as condições ideais da formação dos mitos da tragédia; é neste sentido que analisámos um dos mitos, entre outros, a que ele mais recorre. Trata-se com efeito da história de Édipo, que é o símbolo dionisíaco do homem trágico, encontrando-se em luta e sofrimento face à interpretação do seu destino. Essa figura mítica é concebida por Nietzsche de modo ambivalente, considerando que Édipo é uma máscara do sofrimento dionisíaco, mas também é o "símbolo da ciência", por interpretar os mistérios mais profundos da natureza humana. Notámos que Édipo escuta vaticínios horríveis acerca de si próprio; no entanto, à medida que se vai descobrindo, o seu próprio destino irracional é realizado. Este herói interpretou o enigma da Esfinge e, ao revelar-lhe o segredo desmistificou-a, matando-a com as armas da razão. No fundo, Édipo representa a união do pensamento mítico com a emergência de uma reflexão simbólica e filosófica, por se apresentar como o decifrador dos enigmas; todavia, apenas aquele que está na posse da 'ciência' da interpretação dos símbolos pode decifrar o enigma com verdade. Neste caso a 'adivinha' é apresentada pela Esfinge, que é a figura por excelência da razão enigmática.

4. Em analogia com esta conceção, Nietzsche apresenta Apolo como o símbolo da ilusão, do sonho e também da adivinhação. Torna-se deste modo evidente que Apolo se identifica com Édipo, por este herói e aquele deus partilharem uma faculdade oculta. Já na mitologia grega Apolo era apresentado como o deus do oráculo que possuía os poderes da adivinhação do futuro. Com efeito, ele representava uma modalidade da razão que tinha por finalidade decifrar os mistérios. Em contraposição a Apolo, considerámos que Nietzsche aborda a figura de Dionisos como o símbolo dilecto do seu próprio modo de pensar. Através desta divindade o filósofo trágico representa o êxtase da embriaguez, o excesso, a criatividade, a paixão sexual e as forças naturais da vontade.

Pretende Nietzsche compreender as forças que estão na origem dos símbolos e das obras de arte, apresentando o dionisíaco e o apolíneo como paradigma da relação dialéctica de luta e de união dos opostos. As noções de conflito e harmonia dos opostos procuram dar respostas às confrontações entre as entidades polarizadas, tanto no plano natural, como no plano simbólico e metafísico. Deste modo, o conflito retrata a dissonância e o sofrimento tal como é abordado na obra trágica. Teve Nietzsche a intuição de que na arte existe a comunicabilidade entre os diferentes níveis da realidade, descrevendo-os através da transposição da linguagem não figurativa (dionisíaca) para a linguagem figurativa (apolínea). Esses elementos diversos ora se unem, ora entram em litígio estimulando a produção das novas obras. De facto, o acto criador espelha e perpetua o conflito - Dionisos avança com a força desmedida que Apolo equilibra através do saber configurado!-. A tragédia ática é precisamente o resultado da conciliação entre essas forças antagónicas. Verifica Nietzsche que existe na tragédia uma forma de criatividade que leva à harmonização das duas figuras simbólicas, de tal modo que as relações complexas dos princípios apolíneo e dionisíaco podem ser traduzidas numa aliança de recíprocas conversões linguísticas, que identificam a comunicação ontológica e estética.

Enfim, este processo 'dialéctico' representa a transposição criativa no qual a informe vontade dionisíaca se manifesta na linguagem da forma teórica apolínea, tornando fecundo assim o casamento entre estes princípios opostos. Nietzsche sublinha, contudo, que a conciliação instintiva dos contrários se gera nos abismos da razão inconsciente, revelando uma cisão ontológica, que no plano biológico é traduzido pela luta e atração entre os sexos. Em suma, o nosso filósofo critica a racionalidade fundada na lógica abstracta, mas, em contrapartida, defende uma racionalidade que comporta as forças da vontade na sua transformação e contradição. Trata-se de uma razão viva que é percorrida e animada pelos símbolos criadores da natureza, do mito e da arte. O que significa que o problema do símbolo traduz as diferentes formas da razão orgânica se apresentar e comunicar, pois através do processo transpositivo ela estabelece a unidade no seio da metafísica estética. Enfim, pretendeu Nietzsche desenvolver um pensamento que estivesse ao serviço da renovação civilizacional, considerando que os símbolos morrem se não desenvolvem a capacidade da constante criação dos seus significados. Daí o filósofo da tragédia ter sido o arauto da renovação que ainda está em curso, criticando na modernidade a desvitalização e a morte dos significados simbólicos.

domingo, 20 de março de 2016

A propósito do dia da poesia




No Jardim da Parada em Lisboa, de 17 a 21 de março, vão desfilar os poetas em feira do livro. Louvado acontecimento! Mas uma pergunta não se cala: iremos ver a marcha dos poetas, será a arregimentação da poesia, ou o reconhecimento do velho lema de que “a palavra é uma arma”? A palavra poética ganha a soberania sob a tutela do marechal Fernando Pessoa, por mediação da sua “CASA”. Parabéns! Agora vem a diatribe, sem a qual nem a poesia existiria; pena é darem somente a casa aos poetas quando estão mortos, quando as evocações parecem necrologias. Livremo-nos dos necrófagos! Mas nem tanto, pois, antes poeta reconhecido mesmo pos mortis, do que eternamente ignorado. Pese embora o reconhecimento póstumo não ter matado a fome a Camões, nem a Bocage, que bem estenderam a mão à caridade… Logo, marchar, marchar ao Jardim da Parada!

quinta-feira, 17 de março de 2016

Prática filosófica do cuidado de si em tempo de crise

             

                “A filosofia não serve para nada, para nada mais do que aprender a viver”
Ortega y Gasset, Obras Completas.

                      “Eu pretendo uma nova ordem (…) de homens superiores, junto dos quais as consciências e os espíritos atormentados irão buscar conselho” 
                       Nietzsche, Vontade Poder, III volume, p. 108.

Pretendemos relacionar esta reflexão pessoal com os conhecimentos veiculados no Colóquio “Filosofia, Crise, e Consciência Social” 2016, de modo a os podermos operacionalizar na didática e na pedagogia filosófica. Centraremos a reflexão crítica na oficina orientada por Jorge H. Dias, Aconselhamento Filosófico e Felicidade; e recorreremos às apresentações da Filosofia das emoções (outra oficina); bem como às conferências acerca de Paulo Freire e a Praxis da liberdade; e Reconhecimento e alteridade.

Iniciamos com o pressuposto de que uma Crise apenas pode ser superada se existir uma consciência clara acerca da mesma, devendo-se estabelecer um diagnóstico dos problemas filosóficos, que lhe são intrínsecos, tais como: angústia perante a morte; desespero perante o futuro; dificuldade de gestão de conflitos; falta de sentido; frustração perante o desejo de felicidade; indecisão perante dilemas. A consultadoria emerge enquanto via dialógica da filosofia prática.

Na tradição filosófica o diálogo inaugura-se com Sócrates e Platão, inquirindo sobre o que é a virtude? Platão associa o Bem ao saber verdadeiro e o mal à ignorância. Aristóteles aborda a virtude, recorrendo à busca da vida boa (felicidade) através da ponderação que supere a carência e o excesso. A atualidade, apesar de hedonista, nem sempre se verifica uma efetiva vivência da felicidade, por causa do império do vazio de sentido que instalamos nas vidas, mais centradas no ter do que no ser. Pelo que urge estabelecer critérios que estabeleçam um projeto de vida que nos consciencialize e mobilize para refletirmos, e nos responsabilizarmos.

A consultadoria recorrerá às perguntas pertinentes que permitam aos indivíduos ultrapassar os problemas existenciais, aparentemente irresolúveis. Quiçá os problemas residam em vícios ou falacias de pensamento. E, o objetivo será pensar bem para viver melhor. Segundo esta terapia cada qual deve potenciar e elabora a sua vida. Sendo necessário estabelecer um diagnóstico através de inquéritos, que permitam avaliar em cada sujeito os recursos e carências. E reaprendendo a escutar a voz do ser. Neste sentido, elaborem-se questionários personalizados, com perguntas diretas e pertinentes, de forma a possibilitarem que se gerem outras decisões, centradas sobre o pensamento mais adequado e coerente em conformidade ao projeto de vida de cada ser humano. Para ulteriormente se auxiliar cada um a refletir coerentemente e a cumprir esse projeto. Enquanto indicadores capazes de superar a crise Jorge H. Dias encontra os seguintes valores: generosidade, esforço, desejos, interesse nas coisas e pessoas, amor. Deve ser a dimensão positiva a guiar a vida: procurando a plenitude; a valorização do arrependimento; a par dos projetos que dão sentido e coerência à vida; qualquer boa história de vida será uma motivação. Se o que está em causa neste projeto é a vida boa, ou felicidade, constatamos o que pensa Jorge H. Dias: “A felicidade é um estado de consciência que avalia o resultado dos projetos ao longo de toda a vida”. O método pretende, na área da filosofia prática, identificar projetos na vida da pessoa; analisar a estrutura de um projeto, relacionando-o com a vida da pessoa (valores e sentido); agrupando projetos e definindo aplicações; reforçar a “filosofia de vida” da pessoa; verificando a sua realidade e importância. Fundamentada na filosofia de Julian Marias, pois uma moral com rigor intelectual tem que “estabelecer o mapa real de cada vida humana”.

Neste contexto, mostrou-se a urgência de refletir sobre a atualidade e a consciência da crise. Decidimos explanar no relatório um projeto que envolva esse tópico na formulação de questões que levem em conta o ensino da Filosofia. Tendo em consideração os problemas levantados no mundo atual, onde a vertente tradicional teórica dos programas podem não resolver cabalmente as necessidades espirituais, culturais e filosóficas presentes, torna-se premente dar resposta à questão: Como tornar necessário o ensino da filosofia, hoje, perante a crise? Desejamos reformar o programa em vigor, a partir deste relatório, criando um capítulo novo, a lecionar em alternância aos “Desafios e horizontes da Filosofia” no final do programa do 11º Ano de Filosofia. E no décimo ano reinserir estas temáticas na unidade dos valores éticos, criando novos tópicos e subtemas nesta área.

Devemos orientar a crítica filosófica para uma das suas funções recorrentes: a reflexão da prática da vida quotidiana (circunstância). Queremos questionar, criticar, apresentar teses e argumentos, que tornem viável a emergência de um pensamento que gere equilíbrios e ideias para os novos tempos. O pensamento filosófico, apesar da universalidade e intemporalidade, emerge num contexto histórico e cultural. Propomos a meditação pessoal que traga o recolhimento num tempo de ruído, caos, e excesso de informação. Perguntando, como adequar a nossa mente a um mundo conturbado? Restaurar o diálogo consigo mesmo e com os outros, centrando o pensamento na relação dialógica da reflexão e da comunicação. A filosofia deve-se adaptar aos novos tempos, tornando-se atuante, continuando o seu trabalho: nas redes sociais, nos blogues, nas plataformas? Se não trair a busca autêntica de reflexão crítica: a filosofia deve realizar-se onde estão as pessoas. O mundo social pode virar as costas à filosofia, mas esta não pode recusar-se a cumprir a sua missão, sobretudo na crise e na adversidade. Em rigor, a filosofia renova-se nos contextos complexos e difíceis.

Recorremos neste contexto à pedagogia social de Paulo Freire, apresentada por Joaquim Melro: defendendo a coerência entre os princípios do agir e do pensar. Enraizando o pensamento na praxis, e pela inevitável compreensão transformadora do mundo social: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Freire propõe o desenvolvimento da consciência crítica, ultrapassando a consciência ingénua, pois se esta nos faz pactuar ou submeter ao poder instituído; aquela tem a função de alerta-nos para a crítica transformadora, em que se deve exercer o pensamento e a pedagogia, de tal modo que evite, “As terríveis consequências do pensamento negativo, por serem percebidas muito tarde”, ou seja, as crises latentes devem ser refletidas criticamente, de forma a serem detetadas e ultrapassadas com soluções mais abrangentes no tempo certo, passando inevitavelmente pelo reconhecimento “amoroso” entre quem ensina e quem aprende, de modo a que este não pretenda reproduzir os modelos do opressor. Neste sentido, o dever do intelectual é tirar do silêncio a voz do outro, nomeadamente dos mais desprotegidos. “Não é na resignação, mas na rebeldia em face das injustiças que nos afirmaremos.” Logo o trabalho pedagógico deve ser libertador. Noutra linha de pensamento, se a crise no mundo implica as mudanças, interroguemos sobre os significados desses novos rumos, assim como, avaliemos as alterações mentais, e dificuldades específicas das crises, que as próprias transformações trazem consigo; abordando noções como crise de valores e criação de novos valores, pois o que está em causa é orientar o ser humano para um modo de vida em alternativa às ideologias de massas. A filosofia deve fornecer ferramentas concetuais e métodos de raciocínio aos nossos jovens, permitindo-lhes serem protagonistas da aprendizagem através da descoberta de questões, ideias e resultados que respondam às suas dificuldades (crises) particulares e globais. Com este fito, voltemos a repor a noção de laboratório do pensamento, onde se forjem recursos intelectuais, culturas e espirituais, os quais para lá de compreenderem as transformações das mentalidades, possam facultar outras perspetivas e horizontes para a atuação presente e futura.

Face as sugestões do presente coloquio, propomos um titulo que adapte os conteúdos aqui refletidos às exigências da docência no ensino secundário: Prática filosófica do cuidado de si em tempo de crise, a qual deve ser uma espécie de terapia existencial, constituído pelos subtemas:
1. Da crise às soluções.
2. Da ética à prática.
3. Da poética ao pensar racional.
4. Vivências teóricas, espirituais, e afetivas.
5. Métodos de pensamento.
6. Técnicas de meditação.
7. As resoluções estoicas: o cuidado de si; o auto domínio.
8. Criação de novos valores, a vontade de poder criativa enquanto abertura ao outro (Nietzsche/Lévinas).
9. A vontade de prazer (Freud).
10. A vontade de sentido (Viktor Frankl, J.H. Dias).
11. Os autores de língua portuguesa e as propostas de retorno do pensamento à consciência critica, comprometida com a vida pessoal e social.

Explanação sucinta dos tópicos:
1. Da Crise às soluções. Diagnóstico do mal-estar civilizacional. O prognóstico da terapia.
2. Do património da história da filosofia acerca das teorias éticas às aplicações nas práticas contemporâneas.
3. Na poética do pensar encontrar a origem do pensamento criativo, onde radica a produção de pensamento racional que gera soluções originais. Ou seja, certa poesia é a matriz do pensamento genuíno que interroga o próprio ser, e logo está por trás da criação escrita; pois, na poesia encontra-se o pulsar da invenção e da novidade.
4. Vivências teóricas, espirituais, e afetivas. Compreender o mundo e o homem para os cuidarmos e transformarmos, a partir do alargamento das figuras do pensamento, e dos modos espirituais de vivências teóricas/práticas/afetivas. Exercitar o pensamento para melhor pensar e viver.
5. Recurso à diversidade de métodos filosóficos: maiêutica; dialético; fenomenológico; hermenêutico; consultadoria; logoterapia; “PEACE”…
6. Exercícios de meditação: regressiva…
7. O estoicismo e os conceitos: ataraxia e auto domínio. Recurso a exercícios de “pensar no pior” em cada caso, e vice-versa, de modo a nos tornarmos resistentes face às adversidades da vida (resiliência).
8. Se o homem não é predefinido, encontra-se em aberto a formação de cada ser; daí a busca de soluções de criar/renovar os valores, tomando a criatividade enquanto ponto de expansão da vontade de poder criativa numa relação de comunhão com o outro.
9. A análise de si a partir de um mergulho nas forças e símbolos do inconsciente pessoal e coletivo, onde a busca do prazer se subordine ao conhecimento do funcionamento humano, que se orienta segundo o princípio da realidade.
10. A vontade de sentido enquanto busca constante do pensamento adequado a cada problema concreto. Nas estratégias da consultadoria e logoterapia o sentido da vida é conquistado: no amor/amizade; na obra criada; na reelaboração do sofrimento.
11. Soluções de autores de língua portugueses (Paulo Feire, Agostinho da Silva, Vergílio Ferreira; Eduardo Lourenço…). Levar em conta bons artigos e obras produzidas no arquipélago editorial das universidades (a partir de atas de congressos).

Este modo de abordar o programa de filosofia deve alicerçar-se numa didática que se apoie em exercícios de escrita criativa, que desenvolvam o conceito poético, ensaístico, hermenêutico que estão na origem do pensamento filosófico autónomo. Bem como na implementação de estratégias ativas que, entre outras metodologias, assimilem o universo das novas tecnologias (TIC).

Dez “regras” para estimular o usufruto do laboratório da mente, ou seja, das aulas de Filosofia. 
1. A criatividade autónoma trabalhada com o exercício do pensamento e da palavra critica.
2. Desfrutar e examinar experiências novas (afetivas/mentais) individuais ou em grupo.
3. Pensar e escrever com o rigor e liberdade com vista a protagonizar a sua felicidade.
4. Convocar sempre a inspiração; o património filosófico, a memória; o trabalho; a cooperação.
5. O pensamento filosófico reflete-se nas artes: literatura, cinema, musica, dança, teatro…
6. Tirar proveito da tentativa, experiência e erro… e da tentativa de correção e superação.
7. Revisitar as memórias pessoais e das obras filosóficas para potenciar a experiência do pensar.
8. Aprender a interpretar e a ler para melhor pensar e escrever o seu projeto de vida.
9. Pensar e comunicar com rigor, tirando prazer de todo o processo criativo, partilhado. 
10. Sonhar... como se a utopia abrisse renovadas portas ao futuro pessoal e coletivo. 

Um modo de operacionalizar estas propostas passa pelo recurso à avaliação fundada na produção de ensaios ou de dissertações, que envolvam mais profundamente os intervenientes na relação pedagógica na busca mais autêntica e personalizada (do conhecimento, cuidado de si, e cuidado do outro, envolvendo a conceção do respetivo projeto de vida).

Carlos Alfredo do Couto Amaral


Relatório apresentado ao CENTRO DE FORMAÇÃO ESCOLAS ANTÓNIO SÉRGIO
sobre o Colóquio “Filosofia, Crise, e Consciência Social” 2016