sexta-feira, 22 de abril de 2016
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Contracapa de Alpinista
Carlos Alfredo Couto Amaral nasceu em Mangualde em 1960. Licenciado em Filosofia. Professor na Escola Daniel Sampaio (Sobreda de Caparica). Mestre na Simbologia e
Estética de Nietzsche. Encenador e dramaturgo, escreveu (G)Estação dos Afetos; Meu Fado quase uma estória pirosa de amor, 2013 (Edição em parceria com José Teixeira e Xico Braga), levadas à cena pelo GITT. Publicou poesia: A Sombra dos Momentos Felizes (Edições Colibri, 2000); Sereno Fluir das Horas (Edições Colibri, 2004); Desflorar da Flor de Sal (Minerva Editora 2010). Nos encontros de professores galegos e portugueses da paz orientou oficina de escrita criativa (2013 a 2015).
Alpinista Descendente é a metáfora da vida. Ascendemos com o ideal
aceso no coração. O hábito valoriza o esforço da ascensão, embora quaisquer
momentos tragam sentido à existência. Mesmo nos instantes em que nos bastidores
desmontamos a cena. Para o alpinista existencial na escalada há a possibilidade
da “queda”, ou, a inevitabilidade do ato descendente (até ao arrumar das
cordas). Será irónico o título? Se a apologia cuida da ascensão, contudo, este
alpinista, à luz Sísifo, também é descendente… o que não deixa de rimar com
decadente… (mas a rima é branca).
quarta-feira, 20 de abril de 2016
POSFÁCIO de ALPINISTA DESCENDENTE
No silêncio dos
dias intensificam-se impulsos, dedilhando as cordas da poesia, entre a ebulição
dos sentimentos e as emoções meridionais, num tempo por definir, onde se
pincela o lado bom das palavras, formando um tapete para o “Alpinista descendente” onde o poeta toma
em si uma multiplicidade de sensações.
Neste tomo de
poesia, Carlos Amaral tenta comunicar, fazer passar as suas ideias, aquilo que
vai no seu âmago e “as palavras sabem a música”! Quantas letras no fundo de si,
em delírio? A força de ser abre diversas portas para o mundo e a necessidade de
encontrar a realidade desnudada é outra questão intensa, patente na obra em
causa. Procura a normalidade ante a agitação do quotidiano e os seus versos
primem essa situação onde o ar parece rarefeito.
A natureza tem
uma função apaziguadora, entre o vento, a água, as libelinhas e os nenúfares… o
lírio azul, a borboleta e a neve… elementos na caça ao colorido. Imagens
fulcrais estas, para nos levar de uma forma mais sublime ao mundo da realidade,
no namoro dos arquétipos da natureza.
Pautam-se
ritmos, o dedilhar da pele, a passagem dos dedos, o “rio que refresca os pés” e
“o horizonte alivia a mente” do poeta. Qual perfeita orquestra pronta para
fazer tocar-nos a alma! Todo um corpo mental e físico de sensações “abrindo a
imaginação”, elevando um cálice de vinho, bebendo os poemas um a um e nunca
serão os mesmos. A poética aqui presente pauta-se por odores coloridos,
tentações e inquietações onde os relógios celebram o seu tempo em espiral,
segundo a segundo no corpo que oscila no silêncio dos prazeres ao mausoléu do
silêncio. Entre tantas sensações qual a sensação de se estar na relação com o
mundo?
Neste seu livro
“Alpinista Descendente”, avança por
um percurso graduado, tomado de energias e impulsos que se vão renovando, na
encosta da dúvida, para “encontrar medida à luz da escala reduzida”. Ritmos que
o abatimento cardíaco rouba ao silêncio, na ascensão da vida a um arremesso de
réstia fria na montanha da existência.
A descrição e
imagens que Carlos Amaral usa nos seus trabalhos poéticos são de uma riqueza
maior, fogem ao vulgar, imprimindo um manancial de figuras estilísticas, acaso
se faça uma leitura atenta da sua obra. O ritual poético concebe um ouvido
atento que desperta a atenção do leitor, deixando uma janela aberta no
relicário vático.
Metamorfoses de
sentido entre as portas invisíveis da poesia e o tempo que possibilita a
mudança, por diferentes timbres e aromas de sentido. A inquietação da alma
escreve nos laivos do arco-íris, uma panóplia de cores que traduzem a
diversidade de sentimentos e emoções, um “isto”, que colhe o “pólen nos
apetites da luz”, lugar secreto da interpretação que o amor oculta,
discretamente.
Esta poesia
ilumina a mente dos leitores, traça realidades ímpares, por vezes “espelhos
paralelos”, infundindo o mistério da imagem e dos mitos que são um motivo de
reflexão de um aqui cimeiro. O poeta nesta obra apresenta o seu estilo próprio
e o traço do “Alpinista Descendente”
que transpira de sentidos metafísicos ao tanger da metáfora do ser.
Da leitura
sobranceira assiste-se a realidades e prolongamentos da aurora boreal, na
decantação das sensações a uma suposta metamorfose do espírito, pautando
tempestades platónicas ao crivo de Lao-Tsé, por novas esferas de conceber o
mundo; tempestades de sentir e divagações poéticas entre o juízo do gosto que
por vezes permite trocar as regras do jogo na relação com os outros. Carlos
Amaral no “Alpinista Descendente”
realça a importância dos elementos da natureza, entre a palavra e o silêncio, o
sol e a lua, ao simples beijo e a melancolia da idade à delicadeza do colibri e
o seu triunfo de sorver o mel das flores emplumadas, harmonia e realidades
complementares. Neste seu trabalho assiste-se a uma força original, a um fluxo
que gera uma nova força, por um princípio filosófico que absorve e nos deixa
lançados a novas respostas num lago de desejos e ritmo, poesia de uma nova
postura, fugindo às métricas e rimas tradicionais e cheias de monotonia...
Grandezas e posturas no seu poema: “Perícia do voo”, onde se “abrem portões ao
fundo das sombras”, é este voo, o convite que o Carlos Amaral nos faz, na
tentativa de desprendimento dos relógios do tempo, do acaso entre os casos, das
resistências, possam ser políticas ou não, bem como aos impulsos que nos
assaltam quando menos esperamos. A mente é a central do mundo de cada qual,
absorve o que a envolve e a mesma devolve o que não interessa e “devia
entregar-me à alegria / que a tristeza é manca / cega de um olho / em luto de
algo a perder”… e navega-se entre afetos e fantasia, vezes sem conta
confundindo o caminho traçado um dia, carecendo o nome para o completar…
E para onde
vamos? E se vamos, porque vamos? Onde é o fim do mundo? Num dos seus poemas
magistrais “Intuição poética”, atenta-se à sensibilidade, ao significado, ao
verbo com o intuito de comunicar, mitigando o tédio, com a esperança de
imprimir a sequência dos aromas… e o Carlos Amaral é “profeta, adivinho da
sensibilidade…” e o “poeta é um fragmento das estrelas”… “pedaço de palavra
emocionada”! E o que resta do plenário poético? “Intuições” que “amassam o
grito à solidão”, sendo esta a volúpia e a companhia, no exílio do
encarceramento poético; afinal o que é que está no poeta e o que é que se separou
de si?
Sonhos e
delicadas especulações… são os trilhos do amor, o deserto e o banquete das
sensações e tudo isso confere forma à alma do poeta, apesar das inquietações
existenciais a que nos lança, deixando-nos “na ilha do tempo…” onde “o
sentimento dá sentido / galga a aridez do deserto / Cala o silêncio no peito…”
e “desperta a aurora das emoções” uma nova vertente de conceber o que está em
torno daquele que sente.
A poesia de
Carlos Amaral conduz-nos a um arrebatamento, pelo puro sentido da sua forma,
quando o leitor ou ouvinte se deixa tomar por ela; no traço audacioso da sua
escrita, solta um toque especial por cada verso; como a conjugação das notas
numa composição, executadas na lira das palavras que bebem da interioridade; o
belo enceta na sua poesia uma relação, entrega efusiva de sentimentos e
emoções, independentemente da sua natureza, assim, o poeta absorve do princípio
do prazer, face à simetria do sentido, um mundo cheio de cadências e pontos de
execução que vão dando sentido à sua vida.
Palavras do
diário da alma na sinfonia da viagem existencial… escrever é existir! O poeta
deixa-nos conceitos do sentir e da imaginação concebendo a sua epopeia
filosófica, na destilação do verso, pelo marulhar da metamorfose das formas
poéticas, nas ruas do sonho, ao ritmo das situações a que se expõe, guarnecendo
a malha de um novo mundo. O trabalho presente é um convite à reflexão
filosófica, de caris ontos
existencialista e assim se navega nas palavras entre as sensações e a
consciência de situação. O momento por cada vez é sempre único, procura-se a
essência daquilo que é, no esplendor metafísico das Ideias, à moda platónica!
Neste livro assiste-se a uma viagem poética com imensas estações entre o
sensível e o inteligível, no diverso das rédeas da estética literária e
filosófica. O convite fica feito…
Carlos Amaral
está de parabéns por este seu exemplar trabalho “Alpinista Descendente”, fica o convite para a leitura da obra, onde
deve ser feita devagar e saboreando o teor dos conceitos e tónus poético.
Tavira, 02 de
Janeiro de 2016
Jorge Ferro Rosa
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Na vertigem do Alpinista
Os
músculos tensos
vencem
as alturas
o
espírito encontra
a
dádiva no ar rarefeito
O
Alpinista Descendente de Carlos Couto Amaral, trazido a público pelas Edições
Colibri, trata estados emocionais experienciados
entre píncaros e vales: na Estrela ascende com quatro estações num dia; nos
Picos da Europa escala entrincheirado entre ravinas; alcançando nos Alpes a vertigem
e a beleza que sacodem o aventureiro. Na viagem pelas montanhas busca a
plenitude, as sensações naturais, a serenidade. O Alpinista abandona o frenesim urbano e alcança o
que ambiciona: neblinas, córregos de água, plantas exóticas, sons bucólicos,
ares rarefeitos, tranquilidade… Renova a ousadia e a entrega nas arriscadas sendas,
que aliviam a alma do peso e da saturação. Enfim os sonhos concretizados reforçam
a vontade. E, as narrativas poéticas lapidam sensações brutas.
O
poeta
é
um fragmento das estrelas
é
a gota do mar
é
palavra emocionada
O
Alpinista Descendente
faz a apologia de Sísifo feliz, nos
atos que trazem ao homem certa grandeza, mesmo que vã, consciente dos esforços na
ausência de transcendência. O mesmo é dizer que superamos o absurdo através
do esforço e da luta.
Em
queda
Sísifo
encontra motivos
no
intervalo proibido
O
Alpinista Descendente,
com o despojamento, na ascensão liberta-se do peso; já ao descer integra o pensamento,
aligeirando o mundo das fragas vencidas.
Desce
à
planície
alegria
sem
peso
O poeta concretiza a viagem
simbólica… O Alpinista Descendente
quer ar puro, a renovação, ampliando horizontes que dilatem a alma:
irei
ao começo dos tempos em demanda do segredo
irei
ao cume da montanha em demanda da aurora
A cinestesia identifica a
dinâmica da aventura na demanda que cruza desejos, ideais, sensações, imagens. No
quarto livro poético, Carlos Couto Amaral apostou na depuração estética, na
quase ausência de pontuação, e na verticalidade da escrita sob a analogia do
percurso escarpado.
Sonha
Ícaro
a
furtar
a
cera
às
abelhas
e
a altura
em
metamorfose
escuta
atrás
das
portas
invisíveis
O alvoroço da escalada liberta
adrenalina. Na disputa com o gigante o prazer é proporcional ao esforço. Há um
deslize de palavras colhidas na inspiração do acaso. A serra sem um caderno pode
tornar-se esmagadora, mas a vontade da montanha exprime-se por meio do poeta, superando
opressões e receios.
domingo, 10 de abril de 2016
Abraço da serpente
O filme do cineasta colombiano Nilbio
Torres, Abraço da serpente, aborda a aventura
de um alemão Theo na busca de uma planta curandeira misteriosa: a yakruna, uma
droga com o poder simbólico e terapêutico de fazer sonhar. O explorador europeu
gravemente doente procura a ajuda do xamã Karamakate um dos últimos índios da tribo
Cohiuanos, para lhe servir de guia no percurso do rio Amazonas.
Mostra-nos como os índios nos
sonhos encontram soluções para as doenças do espírito. É uma psicanalise à medida
dos símbolos indígenas. Noutra história posterior o americano Evans, lendo os
diários de Theo procura ter mais êxito, na mesma demanda, por essas paragens
entretanto transformadas.
O filme realça o encontro de civilizações
no confronto do eu com o outro; a par, dos receios, incomunicações,
aproximações e afastamentos e do processo do esquecimento para assumir nova
identidade ("endoculturação").
Os índios acusam os brancos de trazem:
o domínio pela força, a guerra e a morte. É o caso dos seringueiros que
desapossam a dignidade, a identidade, escravizam, mutilam… Expropriam as matérias-primas
da floresta e o território. Rompem os equilíbrios, provocando hecatombes
sociais, cataclismos ecológicos e culturais. O abraço da serpente representa a alegoria simbólica de uma cultura
a estrangular e aniquilar outra.
No encontro do “eu” e do “outro”
surgem crises de aprendizagem entre civilizações diferentes. O índio auto despojado
de bens quer manter-se em sintonia com a floresta – preservar a cultura ecológica.
Por seu lado, Theo traz a bussola para se orientar – mas prefere perder a
amizade dos indígenas, do que ser desapossado desse utensilio. Justifica que
aqueles perderiam o modo natural de se orientarem, abandonando um património cultural
integrado na floresta.
O filme pela capacidade de nos
fazer pensar, atualiza a reflexão simbólica que se encontra nas nossas mentes em
estado de saturação. Propõe o despojamento libertador, uma viagem de purga e
catarse. É um filme obrigatório para detetarmos as raízes primitivas que ainda
estruturam a nossa mente profunda. Defende a preservação da diversidade das
culturas humanas, que ainda restam, por nos poderem ensinar muito acerca de
quem somos. Afinal, o que é o homem?
sábado, 9 de abril de 2016
Métafísica estética do jovem Nietzsche
NATUREZA E FUNÇÃO DO SÍMBOLO NA METAFÍSICA ESTÉTICA DO JOVEM NIETZSCHE por Carlos Alfredo do Couto Amaral Dissertação de Mestrado em Filosofia, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2000, 205 páginas.
1. Nesta dissertação analisámos o conceito de símbolo tal como o jovem Nietzsche o tratou entre os anos de 1871 a 1873, correspondendo à época de O Nascimento da Tragédia. Em termos gerais, Nietzsche abordou a problemática da função simbólica a partir do mito e da arte como domínios integrantes duma tarefa hermenêutica. A este propósito enunciamos o seu enraizamento num período da filosofia que foi dos mais marcados pela simbólica, referimo-nos concretamente ao romantismo alemão.
Desde o início que destacamos na conceção de Nietzsche a transposição como a categoria fundamental do símbolo, a qual indica o transporte e a mudança de uma imagem e de um significado para outro contexto. O símbolo é assim apresentado como um elemento essencial da comunicação que relaciona as diferentes dimensões em jogo na estética. Para este filósofo, o símbolo e a metáfora equivalem-se parcialmente enquanto processos artísticos que estabelecem relações inventivas. De forma implícita Nietzsche mostra-nos que, apesar de existirem traços comuns entre o símbolo e a metáfora, tal não é suficiente para os confundir e identificar, pois o símbolo radica na profundidade do inconsciente musical, enquanto a metáfora se processa à medida da dimensão da linguagem poética, a qual em último caso tem uma matriz literária. Neste sentido, o símbolo pretende estar próximo dos fluxos da vida.
Não reduzimos o símbolo à metáfora, pois a música tem um papel essencial na metafísica estética de Nietzsche sem se subordinar à imagem. A relação da imagem com o símbolo corresponde à intuição que leva o sujeito a conceber a presença do objeto. A força da fantasia vem desempenhar aqui a função de um pensamento que se desenvolve através de associações livres das imagens. Nesta sequência, Nietzsche trata a imaginação como a faculdade simbólica por excelência, que estabelece a unidade entre as diferentes imagens através de conjeturas audaciosas. Na verdade, o sujeito ao fantasiar estabelece comparações que transpõem os significados para domínios desconhecidos, como acontece com a máscara, a qual revela e esconde a força da vontade, transfigurando completamente a realidade em causa.
Entretanto, pensa Nietzsche que o corpo concentra e transfigura através da simbólica da dança e do bailado as características fundamentais da essência da natureza no que se refere à força e à energia. A força e a potência aqui retratadas permitem compreender a própria transposição e transfiguração simbólica da arte. O nosso filósofo pensa que a partir da relação dialéctica entre a força e o significado (inerentes ao símbolo) podemos compreender as forças da natureza e o modo como estas transitam para a arte.
2. Ao investigar a origem do símbolo na força matricial que o sustenta, Nietzsche detecta que existe um fundo inconsciente orgânico e 'sapiencial' que é necessário tornar consciente. Apesar disso, não existe para ele uma ponte segura para a transposição deste elemento para aquele, pois o nível inconsciente não se deixa submeter aos princípios formais da lógica que são a panaceia onde se esconde a fragilidade do racionalismo abstracto.
Em contrapartida, considera Nietzsche que os impulsos cegos do organismo são transpostos de modo simbólico, primeiramente para as vivências sentimentais e depois para as actividades culturais; ou seja, o inconsciente é a fonte energética do processo simbólico. Identifica ele nessa potência subterrânea uma torrente que atravessando os sentimentos se constituem como referenciais semânticos com a capacidade de produzirem novos símbolos.
Na perspectiva do nosso filósofo todo este processo é indirectamente controlado pela vontade; e, como se sabe, a categoria da vontade no jovem Nietzsche depende da filosofia de Schopenhauer. Com efeito, ambos os filósofos concebem o ser e o mundo como entidades dinâmicas, pensando que o mundo é uma representação e manifestação da vontade. Implicitamente o génio aparece aqui como a entidade "subjetiva" que sente a força da vontade a pensar com ele acerca da produção das novas formas; o que significa que o génio é o culminar dessa orgânica da vontade, procurando dominar a 'Força da Vida' para a partir desse fundo inconsciente poder criar as formas simbólicas, as formas míticas, as formas poéticas.
3. No desenvolvimento de tal aspecto, o mito e a arte desempenham em Nietzsche uma função simbólica acrescida na medida em que os utiliza, altera e recria como narrativas e ilustrações do seu próprio modo de pensar. Logo ao entender o que é essencial no pensamento deste filósofo, convertemo-nos em intérpretes dos seus mitos e dos respectivos símbolos artísticos. No entanto, se já vimos como nascem os símbolos, agora convém observar como é que eles desaparecem.
No prosseguimento dos românticos, o jovem Nietzsche critica a ausência das crenças míticas no que se refere à modernidade, revelando a decadência que é provocada pela racionalidade, a qual tudo quer explicar e desvendar, banindo o espaço da incerteza, da dúvida e do espanto. O mesmo é dizer que o "Iluminismo" ['Aufklärung'], ao projetar uma compreensão das crenças, dos sentimentos e dos símbolos acaba por os destruir. Na perspectiva de Nietzsche, o desaparecimento dos símbolos míticos leva à uniformização mental e à falência da civilização moderna que "perdeu a pátria mítica" por se ter desenraizado culturalmente das forças criadoras da vida. Ao diagnosticar este ambiente de decadência, Nietzsche considera, no entanto, a possibilidade duma regeneração por meio do retorno nostálgico ao mítico, a partir de um diálogo vivo entre a música e a filosofia. Tudo isto porque a música é a área cultural em que os símbolos ainda vivem, constituindo-se assim como o centro regenerador da criação e do pensamento. Aqui recorre-se à inspiração de Wagner, na medida em que este ousou pensar por meio de acontecimentos visíveis e sensíveis através de um envolvimento mítico. Considera Nietzsche que em Tristão e Isolda e na trilogia do Anel dos Nibelungos encontramos um género de narrativa dramática que desenvolve as ideias metafísicas sob a forma simbólica. A música constitui desta forma a nova inteligibilidade do pensamento sem negar a sensibilidade, permitindo refletir sobre a arte a partir dela mesma. Pensa Nietzsche que a música de Wagner é um mote para a reflexão, possibilitando uma compreensão metafísica mais elevada do que qualquer filosofia já conseguiu. Como corolário, Nietzsche considera que a música é o espírito que origina a tragédia, participando na génese do coro (que é o elemento da união mítica entre a música e a palavra). Deste modo, o mito é o elemento comum que permite estabelecer a mediação entre a tragédia grega e o drama musical wagneriano.
Posto isto, pretende Nietzsche uma fundamentação mais recuada, procurando na Grécia Arcaica as condições ideais da formação dos mitos da tragédia; é neste sentido que analisámos um dos mitos, entre outros, a que ele mais recorre. Trata-se com efeito da história de Édipo, que é o símbolo dionisíaco do homem trágico, encontrando-se em luta e sofrimento face à interpretação do seu destino. Essa figura mítica é concebida por Nietzsche de modo ambivalente, considerando que Édipo é uma máscara do sofrimento dionisíaco, mas também é o "símbolo da ciência", por interpretar os mistérios mais profundos da natureza humana. Notámos que Édipo escuta vaticínios horríveis acerca de si próprio; no entanto, à medida que se vai descobrindo, o seu próprio destino irracional é realizado. Este herói interpretou o enigma da Esfinge e, ao revelar-lhe o segredo desmistificou-a, matando-a com as armas da razão. No fundo, Édipo representa a união do pensamento mítico com a emergência de uma reflexão simbólica e filosófica, por se apresentar como o decifrador dos enigmas; todavia, apenas aquele que está na posse da 'ciência' da interpretação dos símbolos pode decifrar o enigma com verdade. Neste caso a 'adivinha' é apresentada pela Esfinge, que é a figura por excelência da razão enigmática.
4. Em analogia com esta conceção, Nietzsche apresenta Apolo como o símbolo da ilusão, do sonho e também da adivinhação. Torna-se deste modo evidente que Apolo se identifica com Édipo, por este herói e aquele deus partilharem uma faculdade oculta. Já na mitologia grega Apolo era apresentado como o deus do oráculo que possuía os poderes da adivinhação do futuro. Com efeito, ele representava uma modalidade da razão que tinha por finalidade decifrar os mistérios. Em contraposição a Apolo, considerámos que Nietzsche aborda a figura de Dionisos como o símbolo dilecto do seu próprio modo de pensar. Através desta divindade o filósofo trágico representa o êxtase da embriaguez, o excesso, a criatividade, a paixão sexual e as forças naturais da vontade.
Pretende Nietzsche compreender as forças que estão na origem dos símbolos e das obras de arte, apresentando o dionisíaco e o apolíneo como paradigma da relação dialéctica de luta e de união dos opostos. As noções de conflito e harmonia dos opostos procuram dar respostas às confrontações entre as entidades polarizadas, tanto no plano natural, como no plano simbólico e metafísico. Deste modo, o conflito retrata a dissonância e o sofrimento tal como é abordado na obra trágica. Teve Nietzsche a intuição de que na arte existe a comunicabilidade entre os diferentes níveis da realidade, descrevendo-os através da transposição da linguagem não figurativa (dionisíaca) para a linguagem figurativa (apolínea). Esses elementos diversos ora se unem, ora entram em litígio estimulando a produção das novas obras. De facto, o acto criador espelha e perpetua o conflito - Dionisos avança com a força desmedida que Apolo equilibra através do saber configurado!-. A tragédia ática é precisamente o resultado da conciliação entre essas forças antagónicas. Verifica Nietzsche que existe na tragédia uma forma de criatividade que leva à harmonização das duas figuras simbólicas, de tal modo que as relações complexas dos princípios apolíneo e dionisíaco podem ser traduzidas numa aliança de recíprocas conversões linguísticas, que identificam a comunicação ontológica e estética.
Enfim, este processo 'dialéctico' representa a transposição criativa no qual a informe vontade dionisíaca se manifesta na linguagem da forma teórica apolínea, tornando fecundo assim o casamento entre estes princípios opostos. Nietzsche sublinha, contudo, que a conciliação instintiva dos contrários se gera nos abismos da razão inconsciente, revelando uma cisão ontológica, que no plano biológico é traduzido pela luta e atração entre os sexos. Em suma, o nosso filósofo critica a racionalidade fundada na lógica abstracta, mas, em contrapartida, defende uma racionalidade que comporta as forças da vontade na sua transformação e contradição. Trata-se de uma razão viva que é percorrida e animada pelos símbolos criadores da natureza, do mito e da arte. O que significa que o problema do símbolo traduz as diferentes formas da razão orgânica se apresentar e comunicar, pois através do processo transpositivo ela estabelece a unidade no seio da metafísica estética. Enfim, pretendeu Nietzsche desenvolver um pensamento que estivesse ao serviço da renovação civilizacional, considerando que os símbolos morrem se não desenvolvem a capacidade da constante criação dos seus significados. Daí o filósofo da tragédia ter sido o arauto da renovação que ainda está em curso, criticando na modernidade a desvitalização e a morte dos significados simbólicos.
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